- FutFogão
- Quarentinha Botafogo: O maior artilheiro que não comemorava gols
Quarentinha Botafogo: O maior artilheiro que não comemorava gols
Por Redação FutFogão em 11/02/2026 11:14
A explosão de alegria, o rugido da arquibancada e a sensação de triunfo são elementos intrínsecos ao futebol. Cada gol é um momento sublime, e a forma como os jogadores expressam essa emoção varia enormemente: desde gestos que se tornam marca registrada, coreografias elaboradas ou demonstrações de fé. Contudo, para o maior artilheiro da história do Botafogo, a celebração era inexistente. Quarentinha, que nos deixou há trinta anos, distinguiu-se pela sua abstenção em comemorar seus tentos. Uma reportagem detalha a trajetória deste ícone alvinegro.
A Trajetória de um Goleador Incomum
Originário do Pará, Quarentinha teve passagens pelo Paysandu e pelo Vitória antes de se juntar ao Botafogo em 1954. Após consolidar sua reputação como artilheiro em Belém e Salvador, sua adaptação ao cenário do Rio de Janeiro foi um processo gradual. Foi somente após um período emprestado ao Bonsucesso, em 1956, que ele encontrou seu espaço definitivo no clube carioca.
Sob a orientação de João Saldanha, o Botafogo conquistou o Campeonato Carioca de 1957, com uma vitória expressiva de 6 a 2 sobre o Fluminense no jogo que selou o título. Este evento marcou o prelúdio de uma era gloriosa para o clube. Embora Quarentinha não tenha sido o artilheiro naquele ano específico ? esse posto coube a Paulinho Valentim, também do Botafogo , com 22 gols ?, ele arrebatou o prêmio de goleador máximo nas temporadas de 1958, 1959 e 1960.
O Legado de Quarentinha e a Valorização de sua História
A saga de Quarentinha é meticulosamente narrada no livro "O Artilheiro que Não Sorria", obra do jornalista Rafael Casé. Após anos indisponível, a publicação foi relançada pela editora Mauad. Em entrevista, o autor expõe os motivos pelos quais o maior goleador da história do Botafogo não recebe o reconhecimento devido dentro do clube.
?Com toda certeza a figura de Quarentinha deveria ser mais valorizada pelo Botafogo , afinal é seu maior artilheiro, com 313 gols. Acho que por ter sido contemporâneo dos dois maiores ídolos do clube, Nilton Santos e Garrincha, acabou fazendo com que se tornasse um coadjuvante. E que coadjuvante, né? Afinal, para sempre será o maior artilheiro da história do Botafogo ?, declarou Rafael Casé.
A Personalidade Tímida de um Goleador Letal
Nem mesmo o sucesso estrondoso do Botafogo , as campanhas publicitárias e o destaque na mídia alteraram a essência de Waldir Cardoso Lebrego. Quarentinha era um homem discreto, de hábitos simples e poucas palavras. Em campo, exibia a frieza de um artilheiro implacável. Sua reputação era suficiente para amedrontar os adversários, especialmente os goleiros, que temiam a potência de seus chutes.
No entanto, nos breves instantes entre o chute certeiro, a bola estufando as redes e o retorno ao círculo central, uma transformação ocorria. O artilheiro Quarentinha dava lugar a Waldir, por um fugaz momento. Enquanto seus companheiros vibravam, a torcida irrompia em euforia e o Botafogo celebrava, Quarenta, com o semblante frequentemente pensativo, retornava ao seu campo, pronto para a continuidade do jogo. O goleador não ostentava suas conquistas.
Motivações por Trás da Ausência de Comemorações
Ele sustentava que sua função era marcar gols, e que comemorar seria, portanto, desprovido de sentido. Pelo Botafogo , Quarentinha colecionou títulos expressivos: tricampeão carioca (1957, 61, 62), bicampeão do Torneio Rio-São Paulo (1962 e 64), além de triunfos em torneios amistosos internacionais, eventos que gozavam de grande prestígio na época, tanto para a imprensa quanto para os torcedores.
?Não creio que o fato de não comemorar seus gols tenha sido a causa. Para o torcedor, o importante é bola na rede e isso ele sabia fazer muito bem. Tinha um canhão na perna esquerda. Sua timidez não permitia que se destacasse tanto. Era um cara simples e também sofreu muito com o preconceito que havia contra jogadores negros naquela época?, acrescentou Rafael Casé.
Despedida Inesperada e o Reconhecimento Tardio
Quarentinha disputou sua última partida pelo Botafogo em 21 de novembro de 1964, em um empate de 1 a 1 contra o Bonsucesso, clube que também defendeu em sua carreira. Sua saída do clube ocorreu sem qualquer cerimônia de homenagem, um fato que, segundo seu biógrafo, deixou o artilheiro profundamente entristecido.
?Foi dispensado como um jogador qualquer. Só voltou ao clube na reinauguração de General Severiano em 1995, quando participou de uma pelada de ex-jogadores e recebeu o carinho dos torcedores. Naquela mesma noite passou mal, talvez pela emoção do dia especial. Não se recuperou mais e veio a falecer.?
Um Ícone Eternizado nos Registros Alvinegros
Waldir Cardoso Lebrego faleceu em 11 de fevereiro de 1996, exatos trinta anos atrás. Ele figura na primeira posição do ranking de artilheiros do Botafogo e ocupa a quinta posição em número de partidas disputadas pelo clube, com um total de 444 jogos.
Curtiu esse post?
Participe e suba no rank de membros