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Botafogo: Conflito na Eagle Football Holdings e o Futuro Incerto do Glorioso
Por Redação FutFogão em 24/03/2026 03:02
Em agosto de 2025, o blog lançou a série "A Queda da Águia", com o intuito de dissecar as múltiplas facetas do embate entre John Textor e os demais acionistas da Eagle Football Holdings, que veio à tona naquele período. Meses se passaram, e a situação permanece em aberto. As batalhas judiciais se multiplicaram, e o Botafogo sente os efeitos da perda de sua capacidade competitiva, um reflexo direto da asfixia financeira imposta por esse conflito. Do outro lado do Atlântico, o Lyon se vê às voltas com um endividamento colossal, oriundo da aquisição de um jogador que jamais vestiu sua camisa.
A retomada desta série busca abranger os inúmeros novos acontecimentos, agora em um cenário significativamente diferente. Se no ano anterior foi apontado que John Textor utilizava o Botafogo como um refúgio para tentar salvaguardar sua posição na Eagle – por ser o único clube onde desfrutava de prestígio junto à torcida e onde havia um clube social para fins de barganha –, a percepção atual é que Textor transformou o Botafogo em um refém. Isso se dá por meio de manobras políticas, um endividamento avassalador, sustentado por uma narrativa de terra arrasada, mas agora sem o mesmo respaldo de seus apoiadores iniciais.
Confira os outros textos da série:
- A Queda da Águia (pt. 1) – Do pouso forçado à ejeção de Textor (12/08/2025)
- A Queda da Águia (pt. 2) – Textor se refugia nos trópicos e no tempo (13/08/2025)
- A Queda da Águia (pt. 3) – O Botafogo entre a gratidão e a subserviência (14/08/2025)
A Narrativa da Defesa e a Realidade Financeira
Existe uma visão amplamente disseminada de que "John Textor cometeu muitos erros" e mergulhou o Botafogo em uma situação delicada, dilapidando toda a credibilidade conquistada até então. Após um ano de notáveis conquistas, o turbilhão no âmbito da Eagle Football Holding (Eagle FH) – a empresa criada por Textor onde ele trava uma batalha com os demais acionistas – ainda é atribuído a um "erro" pontual: a aquisição do clube francês Olympique Lyonnais (Lyon).
Nesta perspectiva, a aquisição do Lyon teria sido um equívoco, dado que o clube já se encontrava em situação financeira precária. Essa circunstância teria desencadeado o desajuste financeiro de toda a holding e gerado um débito impagável junto à Ares Management, a gigante gestora de investimentos que financiou a compra. A partir desse "equívoco", um "deslize" teria culminado em um "acidente" administrativo, resultando na guerra entre os acionistas da Eagle, com a Ares à frente, que se uniram para destituir Textor da presidência do Lyon. O empresário americano deu a entender que houve um "complô" nesse processo, que incluiria as sanções impostas pelo DNCG, o órgão responsável pelo controle financeiro da liga francesa.
As punições variaram desde a proibição de contratações até o rebaixamento administrativo, medidas que foram revertidas apenas com a saída de Textor do comando do clube e a ascensão de Michelle Kang ao posto, apoiada pela Ares. É importante notar que esta é uma versão bastante conveniente para a imagem do empresário americano. Ao mesmo tempo em que se apresenta como vítima de artimanhas dos demais acionistas, sugere-se que a questão central, que hoje se desdobra em tantas outras vertentes, não é a natureza intrínseca de seu empreendimento.
A Caixa Preta de Pandora e as Operações de Factoring
Conforme revelado em uma matéria de João Pedro Fragoso, publicada no jornal O Globo, foram expostas as operações controversas de transferência dos jogadores Igor Jesus, Luiz Henrique, Jefferson Savarino, Jair e Thiago Almada, do Botafogo para o Lyon. Desses, apenas o último chegou a vestir a camisa do clube francês.
De acordo com a reportagem, Textor recorreu a pelo menos três instituições bancárias para realizar o que é conhecido como "factoring", que consiste na obtenção de valores antecipados utilizando transferências futuras como garantia, operadas entre duas subsidiárias da mesma holding. O esquema é intrincado e visava conferir ao Lyon um "argumento financeiro" perante os órgãos reguladores franceses, indicando uma liquidez gerada por transferências "de um bolso para o outro" da Eagle. Na época, Textor ainda detinha o controle do Lyon e buscava reverter a iminente sanção de rebaixamento administrativo pelo DNCG.
Recentemente, em 19 de outubro, a Bloomberg noticiou que o Lyon está sendo processado pela PRPF LLC, uma subsidiária da MC Credit Partners LP, por inadimplência de aproximadamente 63 milhões de euros (incluindo juros). Esses valores referem-se ao "factoring" realizado com o jogador Igor Jesus, cujo montante original, em outubro de 2024, era de 35 milhões de euros.
Análise de Paul Quinn: Riscos e o Modelo de Negócios de Textor
Naquele período, Paul Quinn, um especialista em finanças e produtor de conteúdo sobre o Everton FC, proprietário do site "The Esk", elaborou uma análise aprofundada sobre os riscos financeiros e operacionais da Eagle FH. Sua interpretação lança luz sobre o modelo de negócios de John Textor.
"A transferência de contratos de jogadores serve como uma ferramenta crucial para a geração de liquidez a curto prazo e financiamento de transações com partes relacionadas. (...) Essa prática converte efetivamente o valor futuro dos ativos (talento dos jogadores) em liquidez imediata para gerenciar fluxos de caixa críticos", destacou o analista. Ele também detalha o principal problema desse modus operandi: "Essa engenharia financeira é inerentemente arriscada, pois prioriza as necessidades de curto prazo do balanço patrimonial, principalmente aquelas exigidas por órgãos reguladores como o DNCG, em detrimento da estabilidade a longo prazo e da qualificação do elenco".
Paul Quinn desempenhou um papel relevante na avaliação (negativa) das condições financeiras de dois potenciais compradores do Everton FC: a 777 Partners, cuja negociação foi encerrada em junho de 2024; e da própria Eagle FH, que deixou de ser uma possibilidade em dezembro do mesmo ano, com a concretização da venda do clube para a rede Friedkin Group (atualmente Pursuit Sports).
O Capitalismo de Cassino e a Promessa de IPO
As operações de "factoring" representam apenas uma fase mais recente do alto risco envolvido na empreitada de Textor na formação de sua rede multiclubes. A história remonta a um período anterior à chegada do empresário americano à SAF do Botafogo, quando ele já se apresentava publicamente como um investidor bilionário, sólido e responsável. Além de alguns investidores pontuais, John Textor obteve acesso a vultosos volumes de capital por meio de acordos com a Iconic Sports e a Ares Management, dois grupos de investimento atraídos pelo projeto da Eagle Football Holdings pela promessa de uma Oferta Pública Inicial (IPO), a listagem da rede multiclubes na bolsa de valores de Nova Iorque. Este aspecto parece ter sido deixado de lado no momento atual.
Um IPO é um momento singular de capitalização rápida e expressiva de uma empresa, capaz de gerar retornos satisfatórios em qualquer atividade econômica. É um evento raríssimo no futebol – com menos de 20 clubes europeus listados em bolsas, a maioria dos quais busca se desvincular –, mas Textor não apenas sugeriu a entrada de um clube, mas de quatro de uma vez. Iconic e Ares, em diferentes modalidades, mas com aportes consideráveis, depositaram sua confiança neste projeto. A primeira injetou 75 milhões de dólares no final de 2021, com a expectativa de um IPO para 2023; a segunda, no contexto da aquisição do Lyon, repassou cerca de 450 milhões de dólares no final de 2022, com a promessa de um IPO para 2025.
Ambas as partes acabaram frustradas. O IPO não pôde se concretizar enquanto John Textor não assegurasse o controle de um componente essencial da Eagle: o clube inglês Crystal Palace, principal ativo da rede por sua localização na liga mais lucrativa do planeta. No entanto, Textor nunca encontrou um cenário favorável para tal empreitada: os demais sócios do Palace nunca demonstraram interesse em vender suas participações, e a Eagle jamais esteve próxima desse objetivo. Diante do fracasso do IPO (se é que este era o objetivo real), Textor foi compelido pelos demais acionistas da Eagle, especialmente a Ares, a vender a participação de 40% detida no Crystal Palace, a fim de reaver parte dos valores devidos à gestora de investimentos.
O Botafogo como Refém: Dívidas e Manobras Financeiras
Tanto no caso do "factoring", quanto no caso dos "empréstimos com vistas ao IPO", John Textor agiu de maneira irresponsável por um motivo simples: ele se enquadra no perfil clássico de capitalistas norte-americanos, propensos a negócios de altíssimo risco, dispostos a contrair empréstimos a juros elevados, os quais, por sua vez, geram consequências societárias drásticas, com conflitos políticos e na execução das garantias. São situações conflituosas que, consequentemente, resultam em disputas jurídicas. Tudo isso é conduzido por meio de operações financeiras complexas que dificultam a compreensão aprofundada da situação financeira dos negócios, além da ocultação proposital de informações relevantes e atrasos sucessivos na divulgação de balanços.
Recorrendo novamente à análise de Paul Quinn: "As demonstrações financeiras publicadas (...) refletem uma dependência crítica de eventos de financiamento extraordinários, especificamente a venda de ativos e um IPO altamente antecipado e frequentemente prometido, para satisfazer obrigações de dívida imediatas e exigências regulamentares. A principal conclusão de qualquer análise razoável é que a estrutura de capital da EFH é insustentável diante do desempenho operacional atual, evidenciado por um índice de endividamento excepcionalmente alto".
Atualmente, estima-se que a dívida da Eagle Football Holdings ultrapasse a marca de 1,2 bilhão de dólares – um valor que aumenta mensalmente. Em termos operacionais, a holding registrou um prejuízo líquido de 200 milhões de euros no exercício financeiro de 2024/25. Portanto, continuar a acreditar que Textor "cometeu erros" apenas após os títulos de 2024 é optar por uma interpretação equivocada (ou excessivamente branda) de toda a saga da Eagle. Contudo, isso só ocorreu porque John Textor encontrou no Botafogo um refúgio quando tudo começou a desmoronar. Agora, o Botafogo se encontra em uma posição de refém.
A Nova Realidade: Empréstimos Leoninos e o Futuro da SAF
Nesta segunda-feira, 22 de julho, uma nova reviravolta. As condições dos empréstimos obtidos no início do ano, no montante de 50 milhões de dólares, com o objetivo de livrar o Botafogo do transfer ban (caso Thiago Almada/Atlanta United), revelaram-se muito mais onerosas do que aparentavam inicialmente. De acordo com o blog de Lauro Jardim, no site de O Globo, os direitos econômicos dos jogadores do Botafogo foram colocados sob jurisdição internacional (na Suíça) para evitar que a dívida contraída com a GDA Luma Capital e a Hutton Capital fosse incluída em uma eventual recuperação judicial.
O mesmo ato de cessão fiduciária também abrangeu "receitas futuras, direitos e ativos móveis e imóveis e penhor sobre todas as ações que a Eagle tem na companhia em favor do novo credor". Em outras palavras, essa manobra também pode fragmentar as ações da SAF e diminuir a participação da própria Eagle. Ou seja, uma medida com efeito imediato (e mais célere que qualquer outra alternativa), mas com consequências severas, afinal, os demais acionistas da Eagle não aceitarão a diluição da participação da empresa em mais uma manobra de Textor – sócio cuja permanência no controle da SAF do Botafogo eles questionam judicialmente.
Há quem aposte que esta é apenas mais uma estratégia para ganhar tempo, utilizando o desconforto de seus sócios adversários a seu favor. As medidas seriam tão flagrantemente irregulares dentro do estatuto e do acordo de acionistas da SAF do Botafogo, bem como potencialmente na esfera da Eagle FH, que as chances de uma decisão judicial anulá-las seriam remotas. Especialmente agora que o clube social já não se apresenta como um aliado incondicional. Por outro lado, essa nova jogada de John Textor efetivamente amarra o Botafogo aos seus desígnios, em um momento em que já é sabido que a SAF necessita urgentemente de uma nova recuperação judicial. Sem ativos de tamanha importância, torna-se impossível traçar um plano factível para uma recuperação judicial, pois, simplesmente, há pouquíssimo a apresentar aos credores.
O Risco de Falência e a Busca por um Recomeço
As dívidas, de acordo com a mesma reportagem, já somariam cerca de 3 bilhões de reais, incluindo aquelas herdadas do período pré-SAF, que foram minimamente reduzidas – a maior parte foi perdoada pelos grandes credores. Além de parcelas não pagas de aquisições de jogadores, que resultarão em novos transfer bans, há um montante substancial de dívidas tributárias acumuladas nos últimos 4 anos (superando 200 milhões de reais). Mais uma vez, Textor colocou o Botafogo em uma encruzilhada e o utiliza como escudo na batalha incessante que ainda trava na Eagle FH. E o Botafogo não tem muito tempo a perder. A disputa na parte inferior da tabela do Brasileirão está mais acirrada do que nunca, e a necessidade de honrar os compromissos com os atletas é fundamental para evitar um rebaixamento, fato que, segundo informações, está sendo explorado por Textor para atingir seus objetivos.
Como já é de conhecimento geral, o clube social abriu mão de acionar as diversas cláusulas do acordo de acionistas que lhe permitiriam retomar o controle da SAF, cláusulas essas criadas justamente para oferecer essa proteção. Existem incontáveis descumprimentos do acordo por parte da Eagle que justificariam essa medida drástica, incluindo o grau de endividamento. O clube associativo, partícipe direto das primeiras ações temerárias de John Textor, mantém uma postura pouco objetiva no cenário atual, embora transmita a impressão de que já não protege o empresário americano.
É imperativo reconhecer que a SAF do Botafogo corre um risco real de falência. As dívidas são impagáveis nas condições financeiras atuais do clube, pois foram contraídas em um sistema de circulação de recursos e ativos que envolvia clubes europeus (e prometia um IPO), o qual colapsou. Em meio à guerra societária, com Textor sobrepondo disputas jurídicas a novas ações irregulares, o Botafogo viu-se impedido de iniciar um processo de recuperação judicial que, segundo informações internas (apesar das negativas posteriores), já estava sendo elaborado como plano principal.
Em qualquer país ou liga do mundo habituados a desmandos em clubes sob o formato empresarial, as próprias normas esportivas já teriam antecipado a falência judicial da SAF do Botafogo, ao basicamente extinguir sua filiação na federação local. Onde ainda existe a figura da associação civil, o recomeço se daria por meio de uma nova filiação à federação de origem e a disputa da última divisão da pirâmide (como em Portugal e Bélgica). Onde essa figura não existe, espera-se que alguém crie um novo clube-empresa, tente herdar o "legado", conquiste o apoio da antiga torcida e crie a ilusão de seu retorno (na Itália e na Inglaterra, isso é chamado de "phoenix club").
Não há previsão de nada semelhante na esfera esportiva brasileira, tampouco na justiça comum. Um recomeço nos mesmos moldes ocorreria na Série C do Campeonato Carioca, a quinta divisão estadual. Contudo, é possível que, caso essa situação extrema (e não improvável) se concretize, alguma manobra retórica permita à associação assumir a filiação original, mantendo a posição. As medidas para evitar esse desfecho poderiam ter sido iniciadas já em julho de 2025, quando ficou evidente que os demais acionistas da Eagle já não confiavam em John Textor. Oito meses depois, o Botafogo permanece imobilizado e sem perspectivas claras.
John Textor Botafogo — Foto: Wagner Meier/Getty Images
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